A Quaresma e os três remédios de Jesus

By 21 de março de 2017

Leitura: Lc 11,1-11 e Gn 3,4-6

A TENTAÇÃO
O diabo não é criativo. Com a mesma estratégia usada para derrubar Eva investiu contra Jesus, e do mesmo jeito ataca-nos. A vitória depende de uma atitude espiritual, que só nós podemos tomar amparados pela graça de Deus.

Em primeiro lugar é preciso saber contra quem lutamos, e a Igreja ensina que lutamos contra o diabo, o mundo (o sistema hostil a Deus) e a nossa própria carne, ou suas fraquezas. Dos três o mais terrível é o último.

NOSSA FRAQUEZA (DOENÇA)
Por causa do pecado original, temos uma tendência às coisas erradas chamada “concupiscência”, que se manifesta entre outras coisas na procura do caminho mais fácil, das coisas mais cômodas, prazerosas, ou seja, tudo o que nos exija pouco ou quase nada. Nossa carne gosta mesmo do que lhe dá prazer.

O prazer em si não é pecaminoso. Deus criou-o como prova de amor. Basta pensar na variedade dos alimentos e seus sabores, em suas combinações etc. Se a comida fosse apenas para matar a fome e manter-nos vivos, não teria Deus pensado em caprichar tanto! O mesmo pode-se dizer do ato conjugal: Deus deu ao marido e à mulher o dom do prazer, a ser desfrutado dentro do Matrimônio.

Todavia, junto com o prazer existe a responsabilidade dos atos humanos. No ato conjugal, por exemplo, o casal não pode negar-se a ter filhos. O prazer está ligado à missão de gerar e educar (cf. Gn 1,28).

Você sabia que morre mais gente de ‘tanto comer’ ou de ‘comer mal’, do que de fome? No séc. XXI, com tantos recursos e tecnologias, alguém morrer de fome já é algo escandaloso; e, ainda tendo gente morrendo de fome com outros morrendo de doenças resultantes de exagerada ou má alimentação (baseada só no prazer e não na nutrição) é mais escandaloso ainda! Ou seja, a comida deve ser tomada com responsabilidade. Aliás, deve ser um ato de louvor e não mero “enchimento de barriga”, porque não somos animais (cf. 1 Cor 10,31).

Deus não proibiu Eva de comer do jardim, apenas de uma árvore. Como também na vida de Jesus muitas vezes O vemos comendo, bebendo etc., só que o diabo tentou-Lhe justamente quando livremente Este assumiu 40 dias de jejum.

Com Eva a tentação foi passar do limite. Com Jesus, abrir mão do sofrimento assumido livremente. E com você, como tem sido?

Depois da tentação do comer, que no fundo é a do PRAZER, vem a do olhar para cobiçar. Temos de vigiar nossos olhos e ouvidos a toda a forma de propaganda consumista à nossa volta. O mundo tenta impor padrões de consumo, de beleza, de conforto etc., e sem nos darmos conta caímos. A propaganda mesmo existe para dizer que as coisas que temos são velhas, feias, foras da moda, desatualizadas etc. e que precisamos urgentemente de novidades, de tecnologia, de casa nova, parede nova, carro novo, celular novo, jóias novas, tênis de marca novo, bolsa nova e quando não… marido novo, mulher nova, paquera nova etc.

Cuidado com o que tem enchido teus olhos. Do olhar passamos à cobiça, que é uma idolatria (cf. Ef 5,5 e Cl 3,5). Cuidado com o amor ao dinheiro (cf. Mt 6,24; 1 Tm 6,10 etc.). Ele deve ser servo, instrumento (meio) para obtermos as coisas, e não senhor de nossa vida ou meta de nossa vida. A felicidade não está nele.

Por último, o diabo vendeu a ilusão da divindade. Eva comeu porque quis ser como Deus, ou seja, autossuficiente, onipotente, dona do seu nariz, autônoma etc. Do amor ao prazer passamos à aspiração do supérfluo, e deste caímos na idolatria de nós mesmos ou das coisas, idolatria de nossa inteligência (carreira, graduação, sonhos e mais sonhos de grandeza e glória humanas), saúde, patrimônio, nome de família etc. É a riqueza do coração, a busca da própria excelência, a sede de prestígio, de fama, de status social, de poder, e tudo isso agravado pela terrível mania de exposição virtual que temos na Internet!

O REMÉDIO DIVINO
Foi Jesus que no Sermão da Montanha apresentou-nos o remédio infalível que pode curar-nos das 3 doenças mencionadas acima: o desejo de ser, ter e poder além dos limites e dos propósitos divinos para nós.

Contra o prazer temos o remédio do JEJUM. Não é questão de passar fome ou fazer dieta “pré-Páscoa” para depois comer muito ovo de chocolate! Como comer é necessidade vital, se alguém conseguir contrariar-se e negar-se livremente o alimento vez por outra, ou impor-se algumas privações de prazer, alcançará uma fortaleza incrível em sua vontade, capaz de levá-lo à vitória na hora das repentinas tentações (de ira, de sexo, de preguiça, de fofoca etc.). Se você fecha a boca livremente, abrindo mão de algo lícito e justo, você cria uma resistência interior e treina sua mente e seu corpo para escolhas decisivas, como o sim a Deus e o não ao pecado.

Experimente jejuar nas sextas desta Quaresma, tirando ao menos uma refeição, ou tirar doces, refrigerantes, sucos e cerveja nas próximas semanas. Ou tire o açúcar do cafezinho que toma toda tarde, ou coma pão sem manteiga, ou uma salada sem temperos, enfim, use menos ar condicionado, seja pra dormir ou no carro, ou ande um pouco mais a pé, ou faça mais serviços manuais… A lista é imensa. Mas é com pequenos gestos (escondidos dos outros!!!), que vamos domando nossa carne apaixonada por prazer.

Experimente desapegar-se dos bens materiais. Doe mais dinheiro nesta Quaresma, ou doe roupas boas do seu armário, ou alimentos de boa qualidade aos pobres, ou aumente sua contribuição (oferta) à comunidade cristã, ou torne-se dizimista integral, se ainda não é… Cuide menos do carro, pense menos em dinheiro e negócios, seja mais paciente quando souber dos teus gastos, mais sereno diante dos problemas financeiros. Creia na Providência divina. Veja menos TV, acesse menos Internet, leia mais Bíblia e livros cristãos, não deixe seus “olhos soltos” diante da mídia erótica e consumista, pois poderá ser fatal.

Por último, e o mais importante, experimente começar a rezar todos os dias. Se já reza, aumente a intensidade e a quantidade. Acorde mais cedo pra rezar ou deite-se mais tarde… para rezar. Reze mais vezes de joelhos, vá mais que uma vez por semana na Santa Missa. Você já reza o terço diariamente? Se não, comece; se sim, reze mais do que um, ou reze em família ao menos alguns dias.

A oração é própria daqueles que consideram-se fracos e impotentes. Não é fácil rezar, nem dá prazer; não é atrativo passar uma hora olhando para uma hóstia branca sem movimento, ou passando o dedo em 50 continhas do terço… mas é nestes momentos que a nossa fé e amor a Deus crescem de verdade. Jejuar ou abster-se de certos alimentos (como a carne na sexta-feira) é muito bom; desapegar-se dos bens e doar mais é muito bom, mas rezar supera tudo, é algo excelente, a “melhor parte”, porque também é o mais trabalhoso e menos prazeroso, é o mais escondido e mais “monótono”, sem gosto, sem cheiro, sem cores, sem o olhar de admiração das pessoas, mas é ela que nos santifica e nos torna mais parecidos com Jesus, que é casto (e nos chamada a vencer o prazer exagerado com o remédio do jejum), que é pobre (e nos chama a vencer a cobiça ou o apego aos bens materiais com o remédio da esmola) e é obediente (e nos chama a vencer o orgulho e a autossuficiência com o remédio da oração).

Por Cesar M. Lima
Com. Fanuel

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